Pular para o conteúdo

Cardápio

Engenharia de cardápio: como decidir o que fica e o que sai

Por Equipe Rest FoodPublicado em 7 min de leitura

Dono e chef provando pratos e marcando o cardápio para decidir o que fica

O que é engenharia de cardápio

Engenharia de cardápio é o método para decidir, com números, o que fica, o que muda de preço, o que ganha destaque e o que sai do cardápio. Ela cruza duas perguntas para cada prato: quanto ele vende e quanto ele deixa por unidade vendida. A resposta coloca o item num de quatro quadrantes, e cada quadrante tem uma ação típica.

O método mais usado foi proposto por Michael Kasavana e Donald Smith nos anos 1980, e o motivo de continuar útil é simples: ele troca o "acho que esse prato vende bem" por uma tabela que qualquer pessoa da equipe consegue ler.

Um detalhe importante desde o começo: a margem aqui é medida em reais por unidade, não em percentual de CMV. Um prato com CMV de 28% pode deixar menos dinheiro que outro com 34%, se for mais barato. É o real que paga o aluguel.

Os dados de que você precisa

Para cada item do cardápio, num período fechado (30 dias funciona bem para começar):

  • Quantidade vendida.
  • Preço de venda.
  • Custo do prato, pela ficha técnica, incluindo embalagem se o item sai no delivery.

Compare itens da mesma categoria: lanches com lanches, pizzas com pizzas, sobremesas com sobremesas. Colocar refrigerante e costela na mesma matriz distorce tudo.

Passo a passo da matriz popularidade x margem

1. Calcule a margem de cada item

Margem do item = preço − custo do prato. Multiplique pela quantidade para ter a margem total que ele gerou.

2. Calcule a margem média ponderada

Some a margem total de todos os itens e divida pela quantidade total vendida. Essa é a linha de corte da margem.

3. Calcule o corte de popularidade

O critério clássico considera popular o item que vende pelo menos 70% da participação média. Com 8 itens na categoria, a participação média é 1 ÷ 8 = 12,5%, e o corte é 70% × 12,5% = 8,75% das vendas da categoria.

4. Classifique

  • Estrela: popularidade acima do corte e margem acima da média.
  • Burro de carga: popularidade acima do corte e margem abaixo da média.
  • Quebra-cabeça: popularidade abaixo do corte e margem acima da média.
  • Cão: popularidade abaixo do corte e margem abaixo da média.

Um cuidado com os cortes

Os cortes são referências, não leis. Um item que vende 110 unidades com corte em 113,75 está praticamente na linha, e tratá-lo como impopular seria exagero. Para itens perto das linhas, olhe também a tendência: ele vem subindo ou caindo nos últimos meses? A matriz organiza a conversa, e a decisão final continua sendo de quem conhece o cliente da casa.

Exemplo completo: a categoria de lanches de uma hamburgueria

Dados de 30 dias:

LanchePreçoCustoVendidosParticipaçãoMargem unitáriaMargem total
X-burgerR$ 31,90R$ 10,0042032,3%R$ 21,90R$ 9.198,00
X-baconR$ 36,90R$ 12,6031023,8%R$ 24,30R$ 7.533,00
Frango crispyR$ 29,90R$ 8,4026020,0%R$ 21,50R$ 5.590,00
Smash duploR$ 39,90R$ 13,90957,3%R$ 26,00R$ 2.470,00
Cheddar meltR$ 33,90R$ 9,10705,4%R$ 24,80R$ 1.736,00
Costela BBQR$ 44,90R$ 17,50604,6%R$ 27,40R$ 1.644,00
Burger kidsR$ 22,90R$ 7,40453,5%R$ 15,50R$ 697,50
Burger veggieR$ 34,90R$ 13,20403,1%R$ 21,70R$ 868,00
Total1.300100%R$ 29.736,50

As duas linhas de corte:

  • Margem média ponderada: R$ 29.736,50 ÷ 1.300 = R$ 22,87.
  • Popularidade: 8,75% de 1.300 = 113,75 unidades. Quem vendeu 114 ou mais é popular.

Resultado da classificação:

LanchePopular?Margem acima de R$ 22,87?Quadrante
X-baconSim (310)Sim (R$ 24,30)Estrela
X-burgerSim (420)Não (R$ 21,90)Burro de carga
Frango crispySim (260)Não (R$ 21,50)Burro de carga
Smash duploNão (95)Sim (R$ 26,00)Quebra-cabeça
Cheddar meltNão (70)Sim (R$ 24,80)Quebra-cabeça
Costela BBQNão (60)Sim (R$ 27,40)Quebra-cabeça
Burger kidsNão (45)Não (R$ 15,50)Cão
Burger veggieNão (40)Não (R$ 21,70)Cão

Repare em dois pontos. O frango crispy tem o segundo menor CMV da lista (28,1%) e mesmo assim é burro de carga, porque o preço baixo deixa só R$ 21,50 por unidade. E o cheddar melt tem o menor CMV de todos (26,8%) e vende pouco. Olhar só o percentual de CMV levaria a conclusões erradas sobre os dois.

O que fazer com cada quadrante

Estrelas: proteja

O X-bacon vende e deixa margem. A tarefa é não estragar:

  • Mantenha a receita e a gramatura. Corte de custo em estrela é arriscado.
  • Dê destaque no topo da categoria e boa foto.
  • Reajuste com cuidado e em passos pequenos. Estrela costuma aguentar, mas é o item que o cliente mais nota.

Burros de carga: ajuste preço ou custo

O X-burger e o frango crispy trazem volume, mas deixam menos que a média. Opções:

  • Reajuste pequeno. Se o X-burger subir R$ 1,00, para R$ 32,90, a margem vai a R$ 22,90, acima da média, e vira estrela. Mantido o volume, são 420 × R$ 1,00 = R$ 420 a mais de margem por mês.
  • Revisão de custo sem mudar o que o cliente percebe: fornecedor do pão, embalagem, porção de molho.
  • Combo que junta o burro de carga com acompanhamento de boa margem. Veja como aumentar o ticket médio.

Não tire burro de carga do cardápio. É ele que traz o cliente.

Quebra-cabeças: dê visibilidade ou mude

Smash duplo, cheddar melt e costela BBQ deixam boa margem, mas vendem pouco. Antes de desistir, teste:

  • Posição e foto. Primeiro da categoria, imagem bem feita, descrição que dá vontade.
  • Nome e descrição. "Cheddar melt" diz pouco para quem não conhece. Explique o que é.
  • Preço. A costela BBQ a R$ 44,90 pode estar acima do que o público da casa paga por um lanche. Um teste com porção menor e preço menor pode vender mais e manter a margem.
  • Sugestão do atendente no telefone e no balcão.

Se depois de 60 dias de teste o item continua vendendo pouco, ele vira candidato a sair.

Cães: tire, reformule ou mantenha por estratégia

Burger kids e burger veggie vendem pouco e deixam pouco. A ação padrão é tirar, mas olhe o papel de cada um:

  • Burger kids pode ser o motivo de uma família inteira pedir na sua casa. Se for, o pedido completo compensa. Confira no histórico se ele aparece em pedidos de ticket alto.
  • Burger veggie pode ser a única opção sem carne. Retirar faz um grupo inteiro escolher outro lugar. Reformular a receita para baixar o custo costuma ser melhor que tirar.

Cão sem papel estratégico deve sair. Cada item a mais no cardápio é estoque parado, risco de perda e mais tempo de decisão para o cliente.

Erros comuns na engenharia de cardápio

  • Misturar categorias na mesma matriz.
  • Usar ficha técnica desatualizada. Custo velho muda o quadrante.
  • Analisar período com promoção forte. A popularidade fica inflada. Separe ou exclua esses dias.
  • Mudar tudo de uma vez. Ajuste alguns itens por ciclo e meça de novo depois de 30 dias.
  • Esquecer o canal. O mesmo prato pode ser estrela no salão e cão no delivery, por causa da embalagem e da comissão de aplicativo.

A engenharia de cardápio conversa com a curva ABC, que ordena os itens pelo faturamento ou pela margem total. A curva mostra quem pesa mais no resultado; a matriz mostra o que fazer com cada um.

Depois da matriz: como mexer no cardápio

A matriz diz o que fazer. A ordem em que você faz evita sustos:

  1. Comece pelo que não muda o preço. Posição, foto e descrição dos quebra-cabeças. Risco zero para o cliente.
  2. Ajuste custo antes de preço nos burros de carga, sempre que der para manter o que o cliente percebe.
  3. Reajuste em passos pequenos. R$ 1,00 num lanche de R$ 31,90 passa despercebido por muita gente. R$ 4,00 de uma vez, não.
  4. Tire os cães por último, depois de checar se algum tem papel estratégico.
  5. Meça de novo em 30 dias, com o mesmo período de comparação.

Avise a cozinha e o atendimento sobre cada mudança. Item retirado que continua sendo oferecido no telefone vira pedido cancelado e cliente frustrado.

Como fazer isso no Rest Food

No Rest Food, o relatório de vendas por produto dá a quantidade vendida no período, o relatório de CMV por produto traz o custo pela ficha técnica, que acompanha o custo médio do estoque, e o relatório de produtos sem venda aponta quem nem entrou na matriz. Todos exportam CSV para montar a tabela acima numa planilha. Ajuste de preço, descrição, foto e combos são feitos no próprio painel e aparecem no cardápio digital. Veja relatórios e estoque e CMV. Para uma hamburgueria, a categoria de lanches é o melhor lugar para começar.

Perguntas frequentes

Com que frequência devo refazer a engenharia de cardápio?

A cada três meses é um bom ritmo, e sempre que houver mudança grande de custo, como reajuste de proteína, ou de cardápio. Refazer todo mês costuma pegar ruído de feriado e promoção em vez de tendência.

Por que usar margem em reais e não percentual de CMV?

Porque as despesas fixas são pagas em reais. Um prato barato com CMV baixo pode deixar menos dinheiro por venda que um prato caro com CMV um pouco maior. O percentual de CMV continua útil para controlar desperdício e preço de compra, mas não para decidir o cardápio sozinho.

E se a categoria tiver só três ou quatro itens?

O método funciona, mas o corte de popularidade fica alto e a análise perde precisão. Nesses casos, compare cada item com o mais vendido da categoria e use o bom senso, olhando também a margem total que cada um gera.

Engenharia de cardápio vale para bebidas?

Vale, desde que bebidas fiquem numa matriz separada. Bebida industrializada tem margem em reais pequena e popularidade alta, e misturada aos pratos aparece sempre como burro de carga.

Ponha a teoria para rodar no seu restaurante

Cardápio digital próprio, gestor de pedidos, caixa e relatórios no mesmo sistema. 14 dias grátis, sem cartão e sem comissão por pedido.